Um olhar para dentro, para si... Conhecer-se e dar-se a conhecer... Há um universo - permeando expectativas - em meio às ondas de lagares interiores. Todo um mundo que busca desprender-se para fora... num abraço quieto, apertado, num mesmo respirar, no sentar junto pra dialogar, contar da vida, abrir o coração. Ou mesmo, só ficar em silêncio o olhar distante, no entardecer de um dia que já passou. Como é bom sentir um pedaço de infinito nesse tempo de mútua reflexão. Planejar, pensar, sonhar... É, por isso, que a noite insone me surpreende com a saudade de um abraço querido, um toque de carinho e alguém que me diga (de novo e de novo e mais uma vez) com esses gestos, que não estou mais só no universo de luzes...
quarta-feira, 28 de dezembro de 2022
Continuo visitando seixos e penedos interiores, mas minha poesia não se faz mais com versos de epílogos. Faz tempo me visto de sonhos, burgau de sentimentos que entrego ao mundo, mesmo a voz rouca, para que aos raios de sol recebam de minhas mãos de poeta meu amor, meu calor e luz. E quando caminho cinzelando a opacidade brumosa e turva da tarde, na sala de cortinas fechadas, é porque a chuva que cai no telhado da vida - eu a ouço - eu a quero senti-la em toda sua profundidade, melodiando o dançar da alma toda poiesis. Sim, o meu silêncio ainda se faz em mim, quando adormeço as mãos roucas e me ouço no jardim da outra metade do meu coração. É quando o momento sopra essas afrisias interiores e o poema vai silenciando em mim, enquanto desce, palavra por palavra, dos meus olhos que tremulam infinitos de amor ao mar de ventos e ondas e esculpem em mim toadas e maresias com dedos de menestrel, amor e paixão.
Quero ter esse olhar determinado para a vida, saber que a jornada já feita é o caminho traçado para o futuro e que cada momento é único mas faz parte da totalidade do que somos e do que vivemos. Muita gratidão pela vida, por abrir os olhos hoje e sorrir pelos e para os sonhos que carrego no peito.
Um mundo de encanto para os olhos da alma. Olhos que revelam no que demais lindo o mundo pode ter, o prazer e a felicidade de amar e ser amado.
Conviver comigo mesma a partir dessa nova realidade. Perceber-se em sentimentos e pensamentos inusitados que tremulam as mãos, orvalham o corpo em momentos inimagináveis... é a surpresa do inesperado que se faz chama inextinguível no cotidiano da vida.
É quando o fogo do amor perde o medo de ser e encontra a liberdade de se expressar que compreendemos que tudo pode e vai muito além do que até aqui havíamos sequer imaginado.
E o nanquim escorre
das mãos de poema
na página em branco...
derrama-se a tinta sobre as linhas
mas, a alma fala pelas entrelinhas.
Então, vira o poema do avesso,
olha a tela borbada da vida
pelo seu outro lado...
o lado seu, o lado de lá...
Vais encontrar lá
o que as mãos não escrevem,
o que o poema não fala,
o nanquim não chega para desenhar
o que só a alma revela
a quem pode em seus próprios olhos,
no espelho que neles mora, olhar...
O tempo passa e com ele as histórias dos que foram antes de nós. Nossa memória aponta a ancestralidade, quando nossas almas viviam senzaladas em distâncias de si mesmas, sempre em busca, sempre em procuras de se encontrar. Os campos de flores urgem o passadiço do tempo, a alma de cais espera no porto das igualdades o anjo que a guarda há eternidades no caminho da vida. Que a ama e protege em meio aos dias de luzes e em meio aos temporais bravios e carregados de caos. Nunca me abandonou. Mesmo quando meus olhos não o podem ver, eu sei, ele está lá, mesmo minhas mãos não podendo tocar a sua face amada, eu sei, ele está lá. E sei que irá comigo até o fim, que quando a guerra dos anos chegar e o fogo do tempo bramir seus raios em meu corpo e os meus dias chegarem, minha hora de luz, eu sei que ele estará lá em minha despedida e em minha chegada em nossa eternidade. Montará guarda medieval em minha porta, arco e flecha na mão, até que minha alma faça a travessia da vida. E mesmo quando as pétulas do tempo se tornarem envelhecidas em volta de nosso amor, quando afainarem a desordem a fragilidade da vida tremer as nossas pernas, não deixaremos que os armados e fugazes façam nosso caos. E eu sei, bem sei que ficarás guardando minha vida choupana, meu amor de quarto, nosso amado esbelto, que nasce agora como estrelas. Meu desejo é estar sempre contigo, dentro teu olhos e coração, na doçura dos arrozais da vida. Somos iguais. Vives em meu espírito, o és, lá onde dormem anjos, és minha ânsia profunda, onde o tempo fomenta cada vez mais o desejo de te querer entre minhas mãos.
O dia amanheceu nebulento. Meus olhos se abriram em procuras e esperas. Esperaram o toque de sua luz em minha face, teu beijo da manhã. O coração é território teu. Caminhas dentro deles desde a primeira vez. E de lá jamais vais sair. Não é teu corpo prisioneiro, mas tua alma é intrínseca a minha. Se partires, partirei eu... se te fores, não serei mais completa. Faltará você que faz a totalidade do meu ser.