Não me ponho fora de mim, mas me plantei dentro de ti e por isso vivo esse querer ir junto, essa beleza do encontro que nunca se distancia... embora o pensamento me leva à inquietude e às sem respostas das perguntas, um delírio que inquire o tempo e sua passagem. O equívoco não está em "ver a vida passar", mas em deixar a vida passar com os sonhos nas mãos. Sim, há um hoje pra ser vivido, um Agora para se viver. E o Amanhã também.
sábado, 9 de dezembro de 2023
Talvez eu esteja, nesse exato momento, contemplando o ponto cego da minha retina. Aquele espaço-lugar da vida em que você não consegue visualizar mais nada. Você olha e não vê o que a vida lhe mostra, não ouve o que o vento lhe sussurra, não percebe a luz do Sol ou o brilho da Lua ou o caminho dos cometas e o brilho das estrelas. Talvez de tanto buscar a zona que lucida, que apresenta o que a vida tem pra mim eu me perdi na floresta e viva o instante da minha zona de cegueira. Mesmo sabendo que não há luz sem escuridão, nem, como diz o filósofo "não há elucidação sem sem sombra"* me percebo mergulhada num areal em que não consigo compreender e minha mente só pergunta: por quê? Não tenho resposta, nem um eco dela... Ou, talvez tenha e eu esteja, nesse exato momento, contemplando o ponto cego da minha retina.
Nem sempre é possível frequentar o som que sai de nossa própria alma... Nasce no estopim das emoções e, por meio de gestos ocultos ou não, abre asas e alça voo nos céus que sopram fora de nós... Como sintonizar a frequência, ajustar os controles se o som do coração e a alma já não faz mais parte de mim, mas do mundo? É como o poema a melodia que toca... Ganha o espaço fora de mim e já não é mais meu, é teu, é nosso...
O mundo sempre foi mais sombrio do que a lógica das superações, do movimento e da mudança. Para superar-se é necessário esse movimento dialético constante onde uma força sobrepõe-se à outra ascendendo ao espaço e por ele tecendo um novo tapete para os pés. É quando a caixa vira e tudo se derrama, caos, rumores, apertos... E é no silêncio da poeira dessas horas tardias que o real traz a concretude de todas as aspirações, o novo que cabe dentro da caixa. Desengaveta-se a cor, o peso e o cheiro dos sonhos, as ideias e ideais para que os olhos não passem mais os dias espiando a vida pelas frestas.
Também quero mãos que me abraçam, olhos que me caibam e um coração faça parte de forma inteira, completa a ponto de se misturarem as vidas e as digitais que nos dão identidade se confundirem numa só. É esse querer de coisas simples... para quando os momentos de escuridão chegarem e as fragilidades se desvelarem eu sempre poder viver a verdade, a esperança que coloca em nosso caminho, em nosso horizonte a felicidade e a certeza de que o caminho para tudo é o Amar!
Quem está dentro está sempre perto, junto. Caminha na beleza desse ser um só, dessa conexão transcendente e profunda. É o sonho acalentado: que todas as distâncias sejam dirimidas, as geográficas e as do coração. Só assim se vive a alegria plena, a felicidade dos sentires em toda sua grandeza e completude.
Não há como abrandar sentimentos. Eles são. E como são são vividos. Em toda sua força e expressão. Os olhos se olham e, olhando-se, se descobrem em cada sentir experienciado, em cada sentimento que dança livre dentro do peito e transborda pelas beiradas dos olhos, pelos movimentos emudecidos dos lábios e do coração. Habituar-se a se olhar e olhando-se se permitir descobertas é o que nos faz saber mais sobre nós mesmos, sobre quem somos só para nós mesmos, na profundidade de nossa essência, do nosso ser.
Permitir-se se olhar e olhando-se conseguir visualizar o desconhecido em nós, navegar em ventos contrários - admitindo a existência de nossas profundas contradições, ziguezaguear no indizível - mas que tanto se pede para vir à superfície, surfar nas ondas do tempo desenhando o esboço de novos caminhos para os pés, fazer a releitura do que está escrito nas paredes de nossas cavernas interiores, conferir as anotações nas margens das páginas, as tintas que tingem o que consideramos importante, as nuances de nosso próprio ser - em seus princípios: de identidade e de contradição... É a dialética da vida que a si mesma se faz para conquistar o que diz o filósofo "eu sou e não sou quem eu sou"*.