sábado, 31 de dezembro de 2022

Adormeceu um tempo na noite e a madrugada acordou com um ritmo alucinado e belo. E os anseios se dobram como os sinos que urgem nos umbrais das catedrais. Lançam anúncios de uma luz que vem como sonho de uma grande jornada. Volta de sua viagem pelas constelações porque encontrou as respostas que tanta procurava para suas angústias existenciais - e a resposta é o amor. É neste novo tempo que é criança e eternidade. E brinca com uma estrela no leito de pétalas reluzentes de paixão. Sela na travessia de uma era para outra, o voo do Pássaro de Sol que carrega em si suas águas e a terra, dois elementos - um só coração - em sua longa jornada pelo mundo compartilhando o amor. A música se funde a alma da poetisa e cria um mar revolto e apaixonante de ânsias e desejos de viver. E segue a suavidade e a beleza de uma onda do mar para dentro do nosso universo. É nossa primeira vez na era da Nova. A alma não mais dorme e as pálpebras da noite adormecem as angústias e acordam a felicidade prenunciada no sopro do vento da eternidade que, silente e bela, chegou. 

O que dorme em nós ao cair das folhas com o soprar dos ventos e quando os pássaros insondáveis buscam refúgio na luz que esmaece?

Paira em nós o grito das estrelas que ousaram rabiscar os pergaminhos do tempo com o faiscar de novas e indescritíveis canções que almejam revolucionar o mundo. 

É o acordar dos semeadores de sonhos que agora plantam suas sementes na percepção de uma nova era, de um novo momento longe das ferrugens da indignidade e das prisões que a sociedade nos outorga. 

Que a lucidez da liberdade nos alcance em meio as nossas perguntas e que mesmo as não respostas nos permita interpretar os mapas que construímos quando ainda morávamos em outras constelações e ouvíamos falar por nossos antepassados dos caminhos que nos conduziriam a um novo mundo, uma terra de reciprocidade de amor, esperança e paz. 

A Poesia é muda. Quem fala é a alma e quando grita é porque o sentimento não cabe mais, precisa expandir para outro corpo, outra alma. É um grito que leva a emoção ao coração. Um grito de quem vai em busca, ao encontro do amor, o grito que não cala, que se move como onda, quieto, gritante... Grita!... Faz um gemido dolorido, um lamento ouvido até pelo sol... Se ouve só sua voz, única. E o retumbar do coração. Sinta!... O amor não vai morrer, mesmo a tristeza da poesia, o amor não vai morrer. Ela vem do passado, para ser purificada... Sinta o amor! E saiba pra sempre: o amor não vai morrer... 


 Eu fecho os olhos não é porque não quero olhar, é para sentir mais a música. Ouvir as notas com profundidade. Não conheço nenhuma, mas sinto sua intensidade em mim... Elas me percorrem o sangue e fazem reluzir luzes dentro de mim, energia. É como se houvesse eletricidade em cada uma delas e esta fosse conduzida por um fio que tivesse o mapa do meu corpo e, dependendo da música, já soubesse para qual parte ir. Sabe? Sei. Então, é assim. Por isso eu fecho os olhos, para sentir ela indo... entende? Entendo. Então fico sabendo por onde ela passa antes de chega lá. Ela deve saber que o caminho também é importante. 

 Conheço esse intervalo do tempo em que o amor vive. O lugar onde o tempo não mais importa, onde as horas não tem significado algum. Um minuto pode durar uma eternidade quando se vive na saudade e algumas horas podem parecer segundos quando se está junto. E não importa o tempo que passe, na eternidade do tempo é que o amor vive. E neste tempo só o que o importa é o amar. É para amar que se vive, é para o amor que o mundo gira. E é no amor que encontramos a imortalidade e a felicidade. 

Atravesso, escusa, teu silêncio. Espio de longe a guarda dos anjos e os abonados de amor. Se fossem outros tempos minha alma se fecharia em si mesma em silêncio sepulcral e andaria assim, asas arrastando por milênios até vir um vento forte e chacoalhar as correntes que a prendiam à concha escura e triste. Então se derramaria com as sombras dos temporais, se deixaria levar pelas enchentes que as tempestades trariam e, enxurrada, gritaria ao mundo a sua dor de terra, mar e sol. Eu me calaria depois de o vento passar e me esconderia mais uma vez na caverna da concha, quieta, reflexiva, temerosa. Daquele morticínio começariam a sair filetes de sangue e com minhas mãos de pincel eu começaria a desenhar nas paredes da caverna. Do sangue da dor faria quadros na parede, dando nuances a cada sentimento. Seriam cerzidos os fios que ligavam um quadro ao outro e tingidos de púrpura para que pudessem ser vistos pelo sol quando olhasse pra mim. Cada pintura, um poema, cada poema uma história de um momento e o fio vermelho-púrpura cozendo as páginas uma à outra. Seria assim, que nasceria um poema silente colado a ele a lágrima que leva meu coração ao teu enquanto atravesso, escusa, teu silêncio e penso que, se fossem outros tempos... se faria em mim o silêncio dos sepulcros e se derramariam enxurradas pela força dos temporais... se fossem outros tempos...

 A solidão quando é vista, não é que se a veja, é sentida. Se você a sente, ela está em mim. Ela maltrata, corrói, mas também permite viver em solitude de vida com seu coração. Mesmo em meio a solidão meu coração voa, procura o teu para nele se aninhar, para nele viver. Não é que não perceba os teus e os meus sozinhos. Estamos sozinhos em nós. E carregamos juntos o fardo dessa saudade ancestral, agradecidos que temos um ao outro, que finalmente nos encontramos e achamos e a hora do tempo que é de nós dois, a harmonia de nossos corações, alinhamento de nossas almas e a plenitude de nossa canção de amor. Nos encontramos em nossos silêncios, nossas pausas para a entrada do violoncelo, dos violinos que fazem a nossa nova uma poesia... é o som profundo da catedral do coração, por onde comungamos nosso amor.