domingo, 1 de janeiro de 2023

Também ando com a saudade tatuada em meu cerne, mas entendo os sinais da poesia e elevo meu ser até você por meio da escrita. Sinto o cheiro raro de tuas linhas na distância do silêncio que se faz. Sei que falas por outras mãos, mas não sei que mãos ousam a tuas interpretar. É que também não quero perder teus silêncios - neles me abrigo e me consolo na música que perfura minha alma e atravessa os sentidos e suas memórias. E fico meio perdida sem saber para onde ir ou em que hora do tempo a completude da eternidade vai chegar. Como no canto de arana "só reconheço silêncios entre uma nota e outra... moram no âmago". Conheço as pausas, foi nelas que mais vivi. Meu cais é de luz e embora não conheça as fendas das catedrais guardo em mim teus vitrais sagrados, teus mistérios, águas bentas e curadoras e o sacrilégio do teu amor que me abraça na noite que chama ao leito e aos teus braços feitos de nossos sonhos de cetim carmim. 

Um dia vivi, mente calcificada, calcinada por angústias e temores. Libertar-me dessa prisão de mim mesma foi o desafio mais assustador, posto que, a medida que me desfazia dos nós dos fios que me prendiam, me via no espelho e não me reconhecia. Precisei, antes, dar-me a novamente me conhecer. Desprender-se de si e avançar com asas pela janela da alma levou incontáveis vidas. Como diz o canto de Arana, a natureza traz sua individualidade e caminhamos, mãos dadas sim, mas ameaçados por emoções e angústias naturais da imortalidade. O tempo passou e também aguardo conquistas: subir a montanha e tocar com paixão na ponta dos dedos seus picos mais altos, sentir o seu choro, suas lágrimas escorrendo por entre a palma da mão, receber meu beijo, guardado em suas terras, num inefável abraço de luz. 

Na tessitura da vida alinhavo letras que me fazem cativa desse amor que transcende o tempo e o vento que semeia esperança e o vislumbre do horizonte para voar nossa eternidade. Foi no princípio da concretude dessa eternidade que o Sol arrancou as máscaras e me foi possível sua face tão amada conhecer. Sua luz me extasia os sentidos e seus raios incandescentes fazem arder a pele ao seu toque, enquanto bolhas saltitam pelo corpo quente por suas mãos de sonho. Ando cativa dessa teia de felicidade e vou tramando os fios para que o enlace colorido e vivaz não se desfaça durante a jornada que ora juntos empreendemos. É que a lógica da trama da vida é invisível aos olhos que não conhecem os mistérios e segredos do amor.  



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E um canto raro semeia sonhos por entre os chapadões do passado. Uma Arana deleita a alma num voejar de suas asas por sobre o vazio de si mesma. É quando o fardo do vazio transborda que a ave rebrota e eiva poesia das unhas e pés enlameados da chuva que caiu na terra árida e quente. Preciso dizer-lhe que também já andei pó, espichei o olho para o céu em busca de um poema e virei-me do avesso para chover chuva em meus próprios desertos interiores. Revirei carcaças em busca de palavras e sinônimos que descrevessem a criação de um novo sentimento, mas encontrei apenas retalhos para expressar o desdobrar-se da flor numa folha de papel em branco. Foi quando me encontrei, desenhando-me borboleta. Asas abertas, procuro a poesia que borbulha dos dedos, que desaba em nosso colo feito esperança, voa num céu azul imantado, acordando nossas profundezas, nossas asas e raízes que eternizam nosso lindo amor. 

Se há algo escondido na fundura das raízes, se a alma não ouve só por ouvir, nem sente só por sentir... se o universo convida a caminhar sobre as areias quentes e movediças do deserto até um oásis encontrar, se os sons das estrelas fazem o corpo retumbar em três notas de um coração, a alma despida de seus olhos atiça o faro e o toque de pele para falar. E de suas águas bebo o luar e o mel das nascentes, em busca do calor do coração que a felicidade esconde na dor de amor, caminho veredas dantes inexistentes ao encontro do teu alforje de sementes que toco com as mãos sedentas até extrair dele a generosidade das sementes. 


Também contemplo o longínquo, o encantamento do silêncio, o milagre das águas que brotam de teu amor. Tua voz de gratidão pelo meu existir e as batidas de teu coração dentro do meu se encontram no olhar que nasce no esplendor dos meus sentimentos. Cala fundo em mim a tua poesia e os teus passos desenhando o mapa do cruzar do teu com o meu caminho. Minha contemplação viaja por sobre os cimos de delicadezas da terra e nuvens de um céu de natureza selvagem. Sou eu, verdejante e tenra de esperanças, pousando asas na inquietude da saudade, na ânsia de te ter mais um segundo em meus braços sinfônicos orquestrados de melodias e amor. 

Nas entrelinhas do silêncio chegam seus votos de amor e de felicidade para um novo tempo juntos. A travessia a dois, olhos nos olhos, entregando a alma, o coração foi o momento mais marcante. A beleza de estar junto, de estar perto, dentro me trazem os votos de que eu me saiba capaz de lutar por mim, por ti, por nós, por nosso amor. Que eu seja capaz de ser, de fazer, de mudar o que quero mudar em mim, ao meu redor, que eu seja capaz de amar tanto, tanto como até agora amei e amar mais para conquistar cada momento de nossa eternidade. A tua palavra se encerra em meu coração, se aninha e me faz felicidade, porque esta é a verdadeira sabedoria da vida, quando o amor nos faz amor e nos faz felicidade a ser entregue nas mãos que nos abraçam, no coração que mora em nós. Só sendo amor, só sendo paixão, só sendo felicidade podemos transmitir a quem mora dentro o peito o nosso sentir e o nosso ser. Nas entrelinhas do silêncio seus votos chegam a mim...